Tecnologia nem sempre é melhoria

          O avanço da ciência e, consequentemente, da tecnologia tem possibilitado o surgimento constante de novos produtos e serviços, que têm, dentre seus objetivos gerais, facilitar a vida em sociedade. Um importante exemplo desse avanço tecnológico é a internet, que vem facilitando a divulgação de informações em diversas áreas, desde trabalhos acadêmicos educacionais até receitas culinárias.

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          Em relação à utilização da internet para fins educativos, em específico para o ensino de Química, Wellington Douglas Ramos Fernandes apresentou em 2011 seu trabalho de conclusão de curso à Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) intitulado “A criação de um website para a aprendizagem da estequiometria no Ensino Médio”. Neste trabalho, Fernandes apresenta o site Químik, reconhecendo os benefícios possibilitados pela utilização da internet e afirmando que as aulas podem ser mais dinâmicas para os professores e interessantes para os alunos através do uso de ferramentas online. Além disso, o autor ressalta a necessidade, por parte dos professores, de estarem abertos às mudanças de paradigmas que esse tipo de tecnologia propicia em relação ao ensino tradicional e também a necessidade desses profissionais de estimularem o senso crítico de seus alunos, fazendo com que estes pensem, reflitam e pesquisem.

          No entanto, após a avaliação do trabalho desenvolvido por Fernandes, tanto o escrito quanto o site desenvolvido, oUntitled 4 que se percebe é a ausência de espaço para o desenvolvimento da criticidade dos alunos que o autor havia proposto. Quanto ao portal online, o que se observa são curtas definições retiradas de livros didáticos e poucos exercícios descontextualizados propostos para cada assunto. No que diz respeito ao trabalho de conclusão de curso escrito, das doze páginas de sua fundamentação teórica, três se concentram na internet, abordando o histórico, dados da internet no Brasil, número de usuários e internautas ativos e tempo médio de navegação; mais da metade de sua revisão bibliográfica, aproximadamente sete páginas, são destinadas às definições de termos químicos apresentados no site, tais como fórmula química, massa atômica, massa molecular, mol, constante de Avogadro, massa molar, Lei de Lavoisier, Lei de Proust, Lei de Gay-Lussac e estequiometria; uma página se destina à apresentação do programa utilizado para criar o site; em apenas uma página são abordadas questões de ensino associadas à internet. Neste ponto, o autor menciona, novamente, os benefícios da utilização da ferramenta e também descreve um projeto do governo federal, cujo nome é Computador Portátil para Professores, que tem por objetivo auxiliar professores na aquisição de computadores. Nesta seção, verifica-se a carência de uma fundamentação mais abrangente em termos educacionais ligados à internet, que justifique sua importância mediante aos resultados e discussões de outras pesquisas e teorias relacionadas ao ensino nesse âmbito.

          Quanto à metodologia utilizada por Fernandes para a abordagem da estequiometria, um minicurso foi aplicado com quinze alunos de séries não identificadas do Colégio Estadual Professor Agostinho Pereira de Pato Branco – PR, mas que provavelmente são do primeiro ano do Ensino Médio devido ao assunto em questão. O autor dividiu a atividade em dois momentos de quatro horas cada, nos dias 25 e 29 de outubro de 2010. Primeiramente, pediu que os estudantes acessassem o site e lessem o que havia disponível sobre estequiometria. No caso, as definições e exemplos de resoluções de exercícios, sem haver uma abordagem contextualizada que propiciasse uma análise crítica por parte dos alunos. Em seguida, aplicou uma avaliação com questões semelhantes às do site sobre estequiometria, para avaliar o quanto os alunos haviam aprendido após terem utilizado esse “livro digital”, como o autor coloca. Ao analisar o termo que ele traz sobre a ferramenta criada, é exatamente isso a que se assemelha: a uma versão simples de um livro didático, em formato de site, com abas para os assuntos químicos em vez de capítulos, tal como no livro didático. Dessa maneira, sua justificativa por utilizar a internet, por ser algo dinâmico, que favorece a pesquisa e novas metodologias, não esteve de acordo com as metodologias por ele utilizadas. Isso porque os alunos apenas utilizaram o site para ler os conceitos e verificar a resolução dos exercícios. Além disso, verifica-se que o modo como o portal online é apresentado é visualmente menos atrativo que um livro didático, porque, por exemplo, não existem nem fotos representando os compostos químicos, nem notícias ou textos que situem o aluno sobre a relevância do assunto abordado.

          Após a avaliação inicial, ainda nesse primeiro dia de quatro horas de minicurso, Fernandes explicou os conceitos para fórmula química, massa atômica, mol, massa molar, constante de Avogadro, equação química, lei de Lavoisier, lei de Proust, Lei de Gay-Lussac, balanceamento por tentativa e estequiometria. Em relação ao tempo, quatro horas parecem insuficientes para o ensino de tantos conceitos, principalmente se for considerado que os alunos aprenderam inicialmente os conteúdos após a leitura do site, resolveram uma avaliação e, então, foi explicada essa variedade de assuntos. O que se infere é que, provavelmente, ocorreu uma rápida explicação por parte do autor para cada conceito e que, possivelmente, o tempo não foi suficiente para que os alunos se apropriassem de todas essas definições. Em nenhum momento o autor mencionou que fez abordagens contextualizadas ou problematizadoras, como propunha Paulo Freire, apesar de provavelmente saber de sua pedagogia, tendo em vista que estava apresentando um trabalho de conclusão de um curso em licenciatura.

          Ao término das explicações mencionadas anteriormente, Fernandes avisou que na próxima aula haveria uma questão desafio sobre estequiometria, e que o aluno que a acertasse ganharia um prêmio surpresa. Assim, o autor utiliza da pedagogia de Burrhus Frederic Skinner ao tentar condicionar seus alunos ao estudo do assunto em questão, através da recompensa pelo reforço positivo. Desse modo, os alunos provavelmente não estudariam por um interesse e por julgarem ser útil o assunto de estequiometria, mas pela possível recompensa que receberiam caso acertassem o desafio.

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          No segundo dia do minicurso, foi realizada uma questão desafio não mencionada no trabalho escrito. Após a atividade, os alunos que a acertaram, ganhando uma caixa de chocolates cada, mostraram para os demais como se resolveria e, em seguida, o autor demonstrou essa questão para os demais utilizando o quadro. De acordo com Fernandes, este desafio foi importante, pois despertou o interesse dos alunos e levou à competição, mostrando que quando alguém se dedica em aumentar ou melhorar seu conhecimento, essa pessoa sempre é recompensada (sic). A questão é: será que, na vida real, sempre se é recompensado após as atividades que se desenvolve? As pessoas que não veem resultados estão nessa condição porque não se esforçaram o suficiente? Nem sempre.

          Então, Fernandes aplicou novamente outra avaliação, pois, segundo ele, os alunos estudaram durante a semana, durante o intervalo entre os dois dias de minicurso. De acordo com o autor, ele aplicou o mesmo questionário que havia aplicado anteriormente, no primeiro dia de aula. Fez isso para verificar a apropriação do assunto por parte dos alunos, em relação à estequiometria. Ao fazer isso, verificou que as notas aumentaram, e se mostrou bastante otimista em relação ao método utilizado. Basear-se somente em notas e na resolução de uma prova anteriormente aplicada não significa, necessariamente, que os alunos tenham internalizado as questões trazidas pelo autor, pois eles podem apenas ter se lembrado da resolução da questão, sem que esta tenha causado uma real significação para suas vidas.

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          Quanto a uma observação do autor, em relação aos acessos dos alunos na aba “curiosidades” do portal online, verifica-se que os alunos se mostraram interessados por questões diferentes das simplesmente teóricas e representacionais trazidas pelas demais abas do site. Provavelmente, se essas duas abordagens estivessem mais associadas às questões do cotidiano, ao fenomenológico, tal como no triângulo sugerido por Machado e Mortimer (2012), associadas àquilo que os alunos também podem ver e tocar, talvez essas questões de estequiometria fossem mais significativas para os estudantes.

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Referências

FERNANDES, W. D. R. A criação de um website para a aprendizagem da estequiometria no Ensino Médio. Trabalho de Conclusão de Curso. Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Pato Branco. 2011.

MACHADO, A. H. e MORTIMER, E. F. Química para o Ensino Médio: Fundamentos, Pressupostos e o Fazer Cotidiano. Fundamentos e Propostas de Ensino de Química para a Educação Básica no Brasil. Lenir B. Zanon e Otávio A (org.). Editora Unijuí. 2012.

Resenha crítica sobre estequiometria apresentada à disciplina de Laboratório de Ensino de Química II do curso de Licenciatura em Química da Universidade do Estado de Santa Catarina no segundo semestre de 2015.

E aí, o que acharam?
Concordam ou discordam?
Me conte nos comentários 😀
Até o próximo post!

Karol Tarnowski
Tchau

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