A História das Coisas no ensino de Química

Oi, gente! O post dessa semana é sobre um vídeo não muito longo (e sua transcrição, claro rs) bem interessante para se usar nas aulas de Química, principalmente se for tratado de modo interdisciplinar: Sociologia, pelas relações sociais; Biologia, pelos problemas ambientais e de saúde; História, devido ao contexto pós-guerra; e Física, por conta da demanda energética! 🙂 Ele aborda os processos produtivos que ocorrem na nossa sociedade e acredito ser bem válido para discutir sobre substâncias tóxicas, poluição, processos de extração de metais, incineração e reciclagem, quimicamente falando. Veja e me conta o que acha. ♥

(Créditos: Photography Maghradze PH/Pexels)

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Como incorporar o vídeo à aula
Transcrição de “A história das coisas”
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A história das coisas (The Story of Stuff, 2008) é apresentado por Annie Leonard, que posteriormente escreveu “A história das coisas: Da Natureza ao lixo, o que acontece com tudo que consumimos“, livro disponibilizado pela USP aqui. Assisti ele há alguns anos na aula de Ciências, se não me engano. Agora, como professora usei o vídeo na Educação de Jovens e Adultos, principalmente porque lá desenvolvemos atividades dentro da disciplina Ciência, Cultura, Tecnologia e Trabalho (CCTT).

Como comentei no início, existem essas áreas interdisciplinares que permeiam o vídeo, o que é muito bom para dar um contexto mais sólido ao assunto que vamos lecionar! ♥


Como incorporar o vídeo à aula

A forma pode ser muito variada! 😉 Conte as suas sugestões nos comentários, para nos ajudarmos, hehe. 😀 Algumas opções que pensei:

1. Reproduzir o vídeo e discutir com base em questões problemáticas trazidas;

2. Reproduzir o vídeo e propor trabalho sobre o assunto geral ou temas centrais;

3. Reproduzir o vídeo e solicitar um texto sobre as percepções dos alunos (para início ou fim dos estudos de um conteúdo);

4. Reproduzir o vídeo para então iniciar o ensino sobre substâncias químicas;

5. Desenvolver aulas iniciais sobre substâncias ou reações químicas e depois usar o vídeo para trabalhar o contexto da incineração, extração dos minérios e/ou reciclagem;

6. Trabalhar em conjunto com outros professores das disciplinas relacionadas: Sociologia, Biologia, História e Física.

7. Outros… Comente sua sugestão! 🙂

(Créditos: Christina Morillo/Pexels)

Quando usei o vídeo com os alunos, como estávamos encerrando o Bloco referente ao 1º ano do Ensino Médio, solicitei o ponto 3 como atividade extra. Nem todos fizeram, mas percebi que os que entregaram trouxeram os aspectos químicos dentro de um contexto, o que foi bem positivo. Mas o vídeo tem uma entonação que associa a química às substâncias tóxicas – “químicos tóxicos” – e percebi que isso acabou consolidando a ideia dos alunos nesse sentido!

(Créditos: Pixabay/Pexels)

Por isso, acho que talvez seria proveitoso usar o vídeo no ponto 4, para que nas discussões da aula eles levantassem essa ideia de “química ruim” e o professor suscitasse uma contraposição a essa percepção. Por exemplo, primeiramente trazendo embalagens de shampoo ou alimentos que a gente vê no dia-a-dia que usam o termo “sem química” confirmando essa ideia, mas depois trazendo bula de remédio, a composição dos alimentos, das vitaminas e até dos sais minerais, para entrar em choque a ideia de química = ruim. Porque, afinal, tudo é composto pelas substâncias químicas! O que muda são suas características…

O que acham?

(Créditos: Polina Tankilevitch/Pexels)

Transcrição de “A história das coisas” (The Story of Stuff, 2008)

Como vocês sabem, gosto de transcrever os documentários que uso para encontrar as informações com mais facilidade e também para disponibilizar pros alunos. Por isso, aqui estão as informações com a minutagem, para que vocês possam desenvolver suas atividades educativas! 🙂 O download do texto sem as imagens está após a transcrição! 😉

[00:00]
Você tem um destes [aparelho eletrônico musical]? Sou louca pelo meu. Na verdade, adoro todas as minhas coisas. Já se perguntou de onde vêm todas as coisas que compramos e para onde vão quando nos desfazemos delas? Não conseguia deixar de pensar nisso. Por isso quis saber mais sobre o assunto e os livros diziam que as coisas se deslocam ao longo do sistema: da extração para a produção, para distribuição, para o consumo e para o tratamento de lixo. Isso tudo se chama “a economia de materiais”. Bem, eu estudei um pouco mais. Eu passei dez anos viajando pelo mundo atrás de pistas de onde vêm as nossas coisas e para onde vão. E sabe o que eu descobri? Esta não é toda a história, falta muita coisa nessa explicação.

(Créditos: Pixabay/Pexels)

[00:57]
Em primeiro lugar, neste sistema, parece que está tudo bem, sem problemas. Mas, na verdade, é um sistema em crise porque trata-se de um sistema linear e nós vivemos num planeta finito. E não se pode gerir um sistema linear no planeta finito, indefinidamente. Em todas as suas etapas este sistema interage com o mundo real. A vida real não acontece em uma página em branco. Interage com sociedades, culturas, economias, o ambiente e durante as etapas da vida vai se chocando contra seus limites. Limites que aqui não vemos porque o diagrama está incompleto. Então voltemos atrás para preencher alguns espaços e ver o que falta.

Tradução: “Não há nenhum Planeta B” (Créditos: Markus Spiske/Pexels)

[01:35]
Uma das coisas mais importantes em falta são as pessoas. Sim, pessoas. As pessoas vivem e trabalham em todas as etapas desse sistema, onde algumas são um pouco mais importantes que outras: algumas têm maior poder de decisão. Quem são elas? Comecemos pelo governo. Meus amigos dizem que eu devia usar um tanque para simbolizar o governo. E isso é uma realidade em muitos países e cada vez mais também no nosso [Estados Unidos]. Afinal, mais de 50% dos nossos impostos vão para os militares. Mas vou usar uma pessoa para simbolizar o governo, porque acredito nos valores e na visão de que o governo deve ser das pessoas, pelas pessoas, para as pessoas. A função do governo é olhar por nós, cuidar de nós, esse é o seu trabalho.

(Créditos: Krizjohn Rosales/Pexels)

[02:15]
Depois vêm as corporações. O que leva as corporações a parecerem maiores que o governo é porque elas são maiores que o governo. Atualmente, entre as 100 maiores economias da Terra, 51 são corporações. À medida que as corporações foram crescendo, em tamanho e poder, assistimos a uma pequena mudança no governo, como se estivessem mais preocupados com o bem estar deles do que com o nosso. Muito bem, então vejamos o que mais falta nessa imagem.

(Créditos: Negative Space/Pexels)

[02:40]
Começaremos pela extração, que é uma palavra pomposa para a exploração dos recursos naturais, que por sua vez é uma palavra pomposa para destruir o planeta. A verdade é que cortamos as árvores, arrebentamos as montanhas para extrair os metais, consumimos toda a área e exterminamos os animais. Aqui enfrentamos o nosso primeiro limite: estamos ficando sem recursos naturais. Estamos utilizando demasiados materiais. Sei que isto pode ser difícil de ouvir, mas é a verdade, por isso temos que lidar com isso. Durante apenas as três últimas décadas, foram consumidos 33% dos recursos naturais do planeta. Desapareceram. Cortamos, minamos, perfuramos e destruímos o planeta tão  depressa que estamos debilitando a capacidade do planeta para sustentar o nosso modo de vida.

(Créditos: Tom Fisk/Pexels)

[03:23]
Onde eu vivo, nos Estados Unidos, resta-nos menos de 4% da nossa floresta original. 40% dos cursos de água estão impróprios para o consumo. E o nosso problema não é apenas estarmos utilizando demasiados recursos, mas o fato de estarmos utilizamos mais do que a nossa parte. Temos 5% da população mundial, mas usamos 30% dos recursos mundiais. Se todos consumissem ao ritmo dos Estados Unidos, precisaríamos de 3 a 5 planetas. E sabe uma coisa? Só temos 1. Então, a resposta do meu país a essa limitação é simplesmente ir tomar dos outros.

(Créditos: Andrea Piacquadio/Pexels)

[03:59]
Este é o terceiro mundo, que alguém dirá tratar-se apenas de uma expressão para designar o local para onde foram as nossas matérias-primas. E o que é que acontece? A mesma coisa: destruição do local. 75% das zonas de pesca do planeta estão sendo exploradas ao máximo ou além da sua capacidade. Desapareceram 80% das florestas originais do planeta. Só na Amazônia perdemos 2.000 árvores por minuto: o equivalente a um campo de futebol por minuto. Então, e as pessoas que vivem aqui? Bem, de acordo com esses sujeitos [governo e corporações], eles [as pessoas] não são donos desses recursos, mesmo que vivam lá há gerações. Não são donos dos meios de produção, nem compram muitas coisas. Nesse sistema, quem não possui e nem compra muitas coisas não têm valor.

(Créditos: David Riaño Cortés/Pexels)

[04:43]
A seguir, as matérias-primas seguem para a produção, onde utilizamos energia para misturar químicos tóxicos com recursos naturais para produzir produtos contaminados com tóxicos. Há atualmente no comércio mais de 100 mil químicos sintéticos. Apenas um punhado foi testado para avaliar o seu impacto na saúde e nenhum foi testado em relação aos impactos sinérgicos na saúde. Ou seja, a interação com todos os outros químicos aos quais estamos expostos diariamente. Por isso desconhecemos o impacto total deles na saúde e no ambiente, mas sabemos uma coisa: os tóxicos entram e saem. Enquanto continuarmos a introduzi-los nos nossos sistemas de produção industrial, continuaremos a inserir esses tóxicos nos produtos que levamos para nossas casas, trabalho, escolas e, claro, para nossos corpos. Como os BFR’s ou Retardantes de Incêndio à Base de Brometo, que tornam as coisas mais resistentes ao fogo, mas são super tóxicos. São neurotóxicos, ou seja, tóxicos para o cérebro. O que é que estamos fazendo usando esses químicos?

(Créditos: Lieke Kruishaar/Pexels)

[05:39]
Apesar disso, os usamos em nossos computadores, eletrodomésticos, sofás, colchões e até alguns travesseiros. Sim, pegamos nossos travesseiros, os revestimos com neurotoxinas, levamos para casa e dormimos por oito horas com eles. Não sei, mas acho que num país com tanto potencial, poderíamos ter uma maneira melhor de evitar que as cabeças peguem fogo à noite! Sabia que essas toxinas vão se acumulando ao longo da cadeia alimentar e se concentram nossos corpos? Sabe qual é o alimento do topo da cadeia alimentar com o nível mais elevado de químicos tóxicos? O leite materno.

[06:12]
Isto significa que os  menores membros das nossas sociedades, os nossos bebês, recebem as maiores doses de químicos tóxicos das suas vidas a partir do leite das suas mães. Não acha que é uma incrível violação? A amamentação deveria ser o mais importante ato humano de nutrição, deveria ser algo sagrado e seguro. A amamentação continua a ser o melhor e as mães devem amamentar, mas nós deveríamos proteger esse ato, eles [governo e corporações] deveriam protegê-lo, eu pensava que zelavam pelos nossos interesses.

(Créditos: Dominika Roseclay/Pexels)

[06:43]
As pessoas que mais sofrem com esses produtos químicos são os trabalhadores das fábricas. Muitos são mulheres em idade reprodutiva que trabalham com toxinas que afetam a gestação, carcinogênicos e muito mais. Agora eu pergunto: Que tipo de mulher em idade reprodutiva trabalharia em um emprego deste, exposta a estas toxinas, a não ser uma mulher sem outra alternativa? Essa é uma das “maravilhas” desse sistema. A erosão dos ecossistemas e economias locais aqui garante um fluxo constante de pessoas sem alternativas. No mundo há 200.000 pessoas por dia se deslocando de ambientes, que as sustentaram ao longo de gerações, para cidades, onde muitas vivem em bairros de lata à procura de emprego por mais tóxico que seja.

(Créditos: Tima Miroshnichenko/Pexels)

[07:27]
Não só os recursos são desperdiçados ao longo desse sistema, mas também pessoas, comunidades inteiras são desfeitas. Sim, as toxinas entram e saem, muitas delas saem das fábricas em produtos e muitas mais saem como subprodutos ou poluição. E estamos falando de muita poluição. Nos Estados Unidos as indústrias admitem liberar mais de 1.800.000 quilos de químicos tóxicos por ano. Deve ser muito mais, porque isso é o que eles admitem. Trata-se de outro limite, porque quem quer ver e respirar um milhão e oitocentos mil quilos de químicos tóxicos por ano? Então, o que eles fazem? Mudam as fábricas poluidoras para o estrangeiro, para poluir outros países. Mas, surpresa! Grande parte dessa poluição volta para nós trazida pelo vento. E o que acontece depois de todos os recursos naturais serem transformados em produtos?

(Créditos: Yogendra Singh/Pexels)
(Créditos: Kelly Lacy/Pexels)

[08:14]
Passam por aqui, para a distribuição, o que significa vender todo o lixo contaminado com toxinas o mais rápido possível. Aqui o objetivo é manter os preços baixos com as pessoas comprando os produtos em constante movimento. Como eles mantêm os preços baixos? Pagam salários baixos aos trabalhadores das lojas e restringem o acesso aos seguros de saúde sempre que podem. Tudo se resume em exteriorizar os custos. O verdadeiro custo da produção não se reflete no preço. Em outras palavras, não pagamos aquilo que compramos. Outro dia estive pensando nisto, ia a caminho do trabalho e queria ouvir as notícias. Por isso, entrei numa loja para comprar um rádio. Encontrei um pequeno rádio verde engraçado que custava $4,99. Na fila do caixa, pensei: “Como 4 dólares e 99 podem refletir o custo da produção e transporte desse rádio até ele chegar nas minhas mãos?”

(Créditos: Artem Beliaikin/Pexels)

[09:05]
O metal deve ter sido extraído na África do Sul, o petróleo provavelmente do Iraque, o plástico produzido na China e talvez montado por uma criança de 15 anos numa fábrica do México. 4 dólares e 99 não paga nem o aluguel do espaço ocupado na prateleira, nem parte do salário do empregado que me atendeu, ou as viagens de navio e caminhão que o rádio fez.

(Créditos: Andrea Piacquadio/Pexels)

[09:28]
Foi assim que eu percebi que eu não paguei o valor do rádio. Então, quem pagou? Estas pessoas [do planeta] pagaram com a perda do espaço dos seus recursos naturais; estas [da indústria] pagaram com a perda do ar puro, com aumento de doenças – como asma e câncer; as crianças do Congo pagaram com o seu futuro, pois 30% delas abandonam a escola para trabalhar nas minas de Coltan, um metal que usamos em aparelhos eletrônicos baratos e descartáveis; estas pessoas [das lojas] pagaram por não ter direito ao seguro de saúde. Ao longo desse sistema pessoas contribuíram para que eu comprasse o rádio por 4 dólares 99, mas essas contribuições não são registradas por nenhum contabilista. É isto que eu quero dizer com “exteriorizar o verdadeiro custo de produção”. E isso nos leva à seta dourada do consumo, o coração do sistema, o motor que impulsiona. É tão importante proteger esta seta que se tornou prioridade daqueles dois sujeitos [governo e corporações]. É por isso que após o 11 de setembro, quando o nosso país estava em choque, o presidente Bush poderia ter sugerido: fazer luto, rezar, ter esperança, mas não, ele disse para fazermos compras.

(Créditos: Lucas Oleniuk/The Toronto Star)

[10:37]
Compras. Nos tornamos uma nação de consumidores. Nossa principal identidade passou a ser de consumidores. Não mães, professores, agricultores, mas consumidores. Nosso valor é medido e demonstrado pelo quanto contribuímos para esta seta [dourada do consumo], quanto consumimos. Não é isso que fazemos? Compramos, compramos, compramos. Manter os produtos circulando. E como circulam. Sabe qual a porcentagem dos produtos que circulam através desse sistema, que ainda são usados 6 meses depois da venda na América do Norte? 50%? 20%? Não. 1%. Um. Em outras palavras, 99% das coisas que nós cultivamos, processamos, transformamos, 99% das coisas que percorrem o sistema são lixo em menos de 6 meses. Como é que podemos gerir um planeta com esse nível de rendimento? Mas não foi sempre assim.

(Créditos: Brett Sayles/Pexels)

[11:34]
Hoje o consumidor médio americano consome o dobro que há 50 anos. Pergunte a sua avó: no tempo dela, a boa gestão, a engenhosidade e a poupança eram valorizados. Então, como é que isso aconteceu? Bem, não aconteceu simplesmente, foi planejado. Pouco depois da Segunda Guerra Mundial estes sujeitos [governo e corporações] estudavam a forma de impulsionar a economia.

(Créditos: Karolina Grabowska/Pexels)

O analista de vendas Victor Lebow articulou a solução que se tornaria a norma de todo o sistema. Ele disse:

“A nossa enorme economia produtiva exige que façamos do consumo a nossa forma de vida, que tornemos a compra e uso de bens em rituais, que procuremos a nossa satisfação espiritual a satisfação do nosso ego no consumo… Precisamos que as coisas sejam consumidas, destruídas, substituídas e descartadas a um ritmo cada vez maior

[12:19]
O conselheiro econômico do presidente Eisenhower disse:

O principal objetivo da economia americana é produzir mais bens de consumo”

Mais bens de consumo? O nosso principal objetivo? Não é providenciar cuidados médicos, ou educação, ou transportes seguros, ou sustentabilidade, ou justiça? Bens de consumo? Como é que eles nos fizeram adotar esse sistema de forma tão entusiástica?

(Créditos: Cottonbro/Pexels)

[12:40]
Bem, duas das suas estratégias mais bem sucedidas são: a obsolescência planejada e a obsolescência perceptiva. A obsolescência planejada é uma outra forma de dizer: criado para ir para o lixo. Eles fazem as coisas de modo que sejam inúteis tão rápido quanto possível para jogarmos fora e voltamos a comprar. Isso é óbvio em sacolas ou copos de plástico, mas verifica-se isso em coisas maiores, como os esfregões, DVDs, máquinas fotográficas, churrasqueiras, quase tudo, até computadores. Já reparou que quando compra um computador a tecnologia muda tão rápido que em poucos anos se torna quase um impedimento para a comunicação?

(Créditos: E5700/Pxhere)

[13:13]
Fiquei curiosa e abri um desses computadores para ver o que tinha dentro. E descobri que a peça que se muda a cada ano é apenas uma pecinha no canto, mas não se pode mudar apenas essa peça, porque a cada nova versão tem um formato diferente. Tem que jogar tudo fora e comprar um novo. Estive lendo sobre design industrial da década de 50, quando a obsolescência planejada começou a aparecer. Estes designers eram muito claros sobre o assunto, chegavam a debater quão rápido conseguiam que um aparelho avariasse, mas de modo que o consumidor mantivesse fé suficiente para ir comprar outro.

(Créditos: Martouf/Wikimedia)

[13:46]
Foi tão intencional, mas as coisas não avariam suficientemente rápido para manter essa seta [dourada do consumo] funcionando. Por isso existe, também, a obsolescência perceptiva. A obsolescência perceptiva nos convence a jogar fora coisas que ainda são perfeitamente úteis. Como fazem isso? Mudam a aparência das coisas. Por isso, se comprou as suas coisas há alguns anos, todos percebem que você não tem contribuído para essa seta [dourada do consumo]. E como o nosso valor depende da nossa contribuição para essa seta, isso pode ser embaraçoso.

(Créditos: Gabriel Freytez/Pexels)

[14:14]
Por exemplo, se eu tiver o mesmo monitor de computador branco na minha mesa por cinco anos e a minha colega tiver comprado um computador novo, ela vai ter um monitor plano brilhante que combina com o computador, com o celular e até com as canetas. Ela parece estar operando uma nave espacial e eu pareço que tenho uma máquina de lavar na mesa. A moda é outro bom exemplo. Já se perguntou por que os saltos dos sapatos das mulheres passam de largos para finos num ano e no próximo de finos para largos? Não é por haver um debate sobre qual deles é mais saudável, é porque usar saltos largos no ano de saltos finos mostra que você não contribuiu recentemente para seta [dourada do consumo], por isso não vale tanto quanto a pessoa com saltos finos ao seu lado ou em um anúncio.

(Créditos: Anastasia Shuraeva/Pexels)

[14:58]
É para comprarmos sapatos novos, a publicidade e a mídia em geral têm um papel importante nisto. Cada um de nós nos Estados Unidos é bombardeado com mais de 3.000 anúncios por dia. Vemos mais publicidade num ano do que as pessoas há 50 anos viam em toda a vida. Qual é o objetivo de um anúncio se não nos fazerem infelizes com o que temos? Por isso nos dizem 3.000 vezes por dia que nosso cabelo está errado, nossa pele, nossa roupa, nossos móveis, nossos carros, nós estamos errados. Mas tudo se resolve se formos às compras. A mídia também ajuda a esconder tudo isto [o processo]. Por isso, a única parte da economia que vemos são as compras [seta dourada].

(Créditos: Negative Space/Pexels)

[15:36]
A extração, produção e envio para o lixo acontecem fora do nosso campo de visão, por isso nos Estados Unidos temos mais coisas do que tivemos antes. As pesquisas mostram a nossa felicidade declinando. Nossa felicidade teve seu pico na década de 50, a mesma época em que a febre consumista explodiu. Aham. Coincidência interessante. Acho que sei por quê. Temos mais coisas, porém menos tempo para o que realmente nos faz felizes: amigos, família, tempo livre. Estamos trabalhando mais do que nunca. Analistas dizem que não temos tão pouco tempo livre desde a sociedade feudal. E sabem quais são as duas atividades que mais fazemos no pouco tempo livre que temos? Ver televisão e fazer compras.

(Créditos: Cottonbro/Pexels)

[16:18]
Nós americanos passamos três a quatro vezes mais tempo comprando do que os europeus. Assim, nessa situação ridícula, vamos trabalhar talvez em dois empregos e quando chegamos em casa exaustos e sentamos no sofá novo para ver televisão, os anúncios dizem que não prestamos. Então vamos às compras para nos sentirmos melhor, depois trabalhamos mais para pagar o que compramos e chegamos em casa mais cansados, vemos mais televisão que nos diz para fazermos compras outra vez. E estamos nesse ciclo de trabalhar, ver, comprar. E podíamos simplesmente parar. Então, no final, o que acontece a todas essas coisas que compramos?

(Créditos: Anna Shvets/Pexels)

[16:52]
Nesse ritmo de consumo não cabe tudo em casa, apesar do tamanho médio das casas ter duplicado nesse país desde os anos 70. Vai tudo pro lixo e isso nos leva ao tratamento do lixo. Essa é a parte da economia de materiais que conhecemos melhor, porque nós temos de levar o lixo até a esquina. Cada americano produz 2 quilos de lixo por dia, o dobro do que fazíamos há 30 anos. Todo esse lixo ou é despejado no aterro, que é um grande buraco no chão, ou ainda pior: primeiro é incinerado e depois despejado no aterro. As duas formas poluem o ar, o solo, a água, sem esquecer que alteram o clima. A incineração é realmente ruim. Lembra daqueles tóxicos da fase da produção? Bem, queimar o lixo libera esses tóxicos no ar. Pior ainda, produz super tóxicos novos, como a dioxina. A dioxina é a substância mais tóxica feita pelo homem e os incineradores são a principal fonte de dioxinas. Isso significa que podemos parar a principal fonte da mais tóxica substância conhecida e feita pelo homem simplesmente parando de queimar o lixo. E podemos parar hoje.

(Créditos: Juan Pablo Serrano Arenas/Pexels)

[17:59]
Algumas empresas não querem criar aterros e incineradores aqui, por isso também exporta os resíduos. Então, e a reciclagem? A reciclagem ajuda? Sim, a reciclagem ajuda, ela reduz o lixo nessa extremidade [final produtivo] e depois reduz a pressão para minerar e colher mais nessa extremidade [início produtivo]. Sim, sim, sim, todos devemos reciclar, mas reciclar não é o suficiente. Reciclar nunca será suficiente por duas razões: primeiro o lixo que vem das nossas casas é apenas a ponta do iceberg. Para cada saco de lixo que deixamos na esquina, 70 sacos de lixo são criados anteriormente, só para fazer o lixo desse saco que deixamos na esquina. Assim, mesmo que pudéssemos reciclar 100% do lixo das nossas casas, não se chegaria ao coração do problema. Além disso, grande parte do lixo não pode ser reciclado, ou porque contêm demasiados tóxicos, ou porque é criado de início para não ser reciclável. Como aquelas caixas de suco, que têm as camadas de metal, papel e plástico todas coladas. Não dá para separar essas camadas para reciclá-las.

(Créditos: Polina Tankilevitch/Pexels)

[19:02]
Como se vê é um sistema em crise, por todo o percurso estamos batendo em limites, do clima em mudança ao decréscimo da felicidade. Simplesmente não está funcionando. Mas a parte boa de um problema tão generalizado é haver tantos pontos de intervenção. Há pessoas trabalhando aqui salvando florestas e aqui na produção limpa. Pessoas trabalhando em direitos do trabalho, em comércio justo, em consumo consciente, no bloqueio de aterros incineradores e, muito importante, em recuperar o nosso governo. Para que seja realmente pelas pessoas e para as pessoas. Todo esse trabalho é criticamente importante, mas as coisas vão realmente começar a se mover quando enxergamos as ligações, quando enxergamos o panorama geral.

Tradução: “Justiça climática” (centro) (Créditos: Vincent M.A. Janssen/Pexels)

[19:43]
Quando as pessoas ao longo do sistema se unirem, poderemos reivindicar e transformar esse sistema linear em algo novo, um sistema que não desperdice recursos ou pessoas. Porque aquilo de que precisamos nos livrar é da antiga mentalidade de usar jogar e fora. Há uma nova escola de pensamento nesse assunto e é baseada em sustentabilidade e equidade. Química verde, zero resíduos, produção em ciclo fechado, energia renovável, economias locais vivas; já está acontecendo. Há quem diga que é irrealista, idealista, que não pode acontecer. Mas eu digo que quem é irrealista são os que querem continuar pelo velho caminho, isso que é sonhar. Lembre-se que a velha forma não aconteceu por acaso, não é como a gravidade que temos que conviver. As pessoas a criaram e nós também somos pessoas, por isso vamos criar algo novo.

(Créditos: ThisIsEngineering/Pexels)

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  • Transcrição: “A História das Coisas” sem as imagens (Baixar)
  • Livro: “A História das Coisas: Da natureza ao lixo, o que acontece com tudo que consumimos” [Disp. USP] (Baixar)

E aí, gente?
Não deixem de comentar sobre suas ideias para a aula, para que outros profs vejam, e também dizer o que acharam do post, pois é muito importante para mim. ♥


Críticas e sugestões são sempre bem-vindas.
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Até semana que vem! 🌸
Karol

2 comentários sobre “A História das Coisas no ensino de Química

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