O tempo do professor

Oi, prof. Tudo certo? Hoje trago um novo estilo de post, mais reflexivo. Tenho pensado muito a respeito do tempo. Você tem tempo?

Apesar dos diversos desdobramentos possíveis sobre o assunto, o que mais tem me intrigado sobre o tempo é como ele foi capturado pelas redes sociais e como tem modificado as relações humanas. Com o celular, estamos disponíveis a qualquer um, a qualquer tempo e em qualquer lugar. Tecnológico, o celular parece a solução pra vida caótica e precarizada que se vive: aproxima, entretém, traz segurança e permite que tudo se resolva em um clicar. O que isso se tornou?

(Créditos: mikoto.raw photographer)

A nível pessoal e profissional, as relações se tornaram imediatistas. “Você não viu a mensagem que mandei?”, “Você não olhou o grupo?”, “Já mandei mensagem, mas ele não responde!” – e hoje, assim que terminei esse texto, de modo bem simbólico: “Quero falar contigo mas tenho que ficar lembrando que você não tem WhatsApp!”. Em que momento as barreiras do tempo individual e do outro foram rompidas? Por que a expectativa de algo tão particular como o tempo? Aonde estamos indo com tanta pressa?

O sentimento é o de débito. Sempre devendo respostas. A moeda é a atenção imediata.

Professores, com diversas demandas e responsabilidades, notoriamente conhecidos pelo burnout (Ministério da Saúde). Por que se normalizou o trabalho fora do horário de expediente? Mesmo críticos ao excesso de trabalho, nos disponibilizamos infinitamente (nos intervalos, no almoço, pela manhã, à tarde, à noite e aos finais de semana) para demandas do outro-profissional: avisos da gestão, atendimento aos pais, dúvida de alunos e de colegas de profissão. É como se conversar sobre o trabalho não fosse trabalho. Onde estão os limites entre o tempo individual, a vida pessoal e a profissional? O que está acontecendo? Aqui cabe o trocadilho What’s up? / WhatsApp.

Trabalhar pelo WhatsApp é precarizar nossa profissão.

O que precisamos é de tempo estruturado: tempo para pensar coletivamente, organizar demandas, conversar sobre os problemas, rever estratégias, atender pais e alunos. O encurtamento da comunicação nesse imediatismo das redes gera sobrecarga mental. Ilusão achar que otimizamos o trabalho: há várias abas abertas, no celular e na mente.

Alguns argumentam: “É só não responder”. As notificações se multiplicam, arquivos desorganizados lotam o celular, demandas infindáveis são resolvidas dentro de grupos diversos, múltiplos assuntos em simultâneo… e já estamos em débito por não estar a par do que foi mandado há minutos. Mas, assim que é visualizado o grupo, a mensagem é atualizada ao remetente: “visto”. Mesmo não respondendo, algum efeito esse sistema provoca no professor inserido nessa dinâmica, ainda que um pensamento desagradável.

Quem está se beneficiando desse tipo de comunicação?
Por que há julgamento a nível pessoal se esse é um problema profissional e estrutural?

Há uns meses tomei a decisão de me afastar da comunicação-instantânea-a-qualquer-tempo-com-qualquer-pessoa. O bem-estar foi imediato. Com a comunicação por e-mail, posso trabalhar no horário adequado, organizar os assuntos e lidar formalmente com demandas institucionais, dando encaminhamento às situações que requerem atenção.

É claro que isso soa esquisito. Mas estou acostumada a ocupar esse lugar. Acho que essa recusa da docência instantânea é uma forma de resistência a esse tempo precarizado, cheio de excessos e expectativas, de muita informação e pouco diálogo.

Qual sua vivência em relação ao tempo?

(Céditos: Alyona Nagel)

Vamos conversar a respeito?
Ainda estou intrigada…

Até logo,
Karoline Tarnowski

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3 comentários sobre “O tempo do professor

  1. Muito boa a reflexão! Acredito que podemos até fazer um paralelo com um tipo de comida muito conhecido, como as comidas instantâneas. O whatsapp e outros chats instantâneos são aquelas mensagens rápidas, sem conteúdos em sua maioria, que você quer que outro leia e te responda o mais rápido possível, em qualquer lugar de qualquer forma, como se estivéssemos disponíveis sempre. O macarrão instantâneo também tem essa mesma característica, porém para comida, sem nenhum valor nutricional, apenas para te satisfazer o mais rápido possível, para você conseguir fazer qualquer outra coisa, sem perder tempo pensando no que irá comer, ainda mais para os macarrões que já vem pronto e a única coisa que você precisa fazer é colocar água quente.

    Com tanta instantaneidade esquecemos de compartilhar momentos de felicidade, participar de conversas presenciais e tantas outras interações que poderíamos ter. Nos falta contato e não estou falando da lista de contatos do celular. Tenho uma memória muito boa de antes do celular e a tecnologia nos moldar desta forma, de quando tínhamos que ir até a casa de um amigo para saber se ele estava lá, ou no máximo era possível ligar para a casa desta pessoa e torcer para alguém atender, do outro lado, ouvia-se um voz humana, com intonações e emoções, mesmo que as vezes chateada de atender uma ligação no meio de alguma atividade que estava fazendo em casa.

  2. Excelente reflexão! O texto aborda com muita sensibilidade o quanto o tempo do professor é precioso e, muitas vezes, subestimado. É importante valorizar esse trabalho que vai muito além da sala de aula

    • Olá 🙂 Verdade. Às vezes, até nós subestimamos nosso próprio tempo de trabalho… Nosso trabalho vai além até dos conhecimentos técnicos. Há muito emocional envolvido nas relações humanas.

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